Padre explica por que nem sempre trocar carne por peixe na Sexta-feira Santa é o ideal: 'Se for caro, perde o sentido'

  • 02/04/2026
(Foto: Reprodução)
Professor de história explica as razões históricas sobre o consumo do bacalhau Não é só na Sexta-feira Santa que não se come carne, mas em todas as sextas-feiras do ano. E também não é o bacalhau — ou qualquer outro peixe — que necessariamente deve ser consumido na data. Mas por que esse peixe tradicional das águas geladas do Atlântico Norte e também do Pacífico ganhou espaço na mesa de tantas famílias? E por que se come peixe nesse período? O g1 conversou com o padre jesuíta e jornalista da Rádio Vaticano Bruno Franguelli, de Sorocaba (SP), sobre como surgiu a tradição de comer peixe, que passou a fazer parte do calendário cristão a partir do século IV. 📲 Participe do canal do g1 Sorocaba e Jundiaí no WhatsApp Nesse período, a Igreja definiu momentos específicos de reflexão, como as sextas-feiras, voltadas à penitência — isto é, práticas de reflexão, sacrifício e espiritualidade. "Existe uma tradição antiquíssima da Igreja Católica Apostólica Romana de não comer carne na Sexta-feira Santa, desde os primeiros séculos. Mas, além dessa data, que representa a morte de Jesus Cristo, a Quarta-feira de Cinzas, que marca o início da quaresma, também pede a abstinência. Essas duas datas representam uma restrição total desse alimento", comenta o padre. Padre e jornalista da rádio do Vaticano Bruno Franguelli, na porta da Capela Sistina Arquivo pessoal Mas por que é feita essa restrição? Como lembra o padre, a Igreja Católica não é apenas uma instituição religiosa, mas carrega em sua essência simbolismos que existem há mais de 2 mil anos, desde os tempos dos apóstolos, e a carne vermelha é associada a algo festivo, presente em grandes celebrações e banquetes. LEIA TAMBÉM: Fiéis fazem penitências sem maquiagem, com banho gelado e jejum de música durante quaresma 40 ou 46 dias? Padre explica duração da quaresma na Igreja Católica Produtores de ovos se preparam para demanda da quaresma com preços mais acessíveis Quaresma transforma jejum em solidariedade e fortalece corrente do bem em Jundiaí "Embora a restrição total da carne vermelha seja na Sexta-feira Santa e na Quarta-feira de Cinzas, a Igreja recomenda que não se coma carne em nenhuma sexta-feira do ano, a não ser que haja solenidades ou festas. O porquê disso é que a carne bovina sempre foi tida como uma carne mais cara, então é uma maneira de consumir um alimento mais simples, menos festivo para esses dias, e abster-se de algo muito prazeroso e caro", lembra o padre. 🐟 Mas e o peixe? O padre jesuíta explica que não existe um documento canônico que oriente os fiéis a consumirem peixe, mas trata-se de um costume que atravessou gerações e se popularizou. "É algo popular, que ganhou continuidade com o tempo. Porém, como dito, a Igreja pede para evitar alimentos festivos. Então, as pessoas começaram a comer peixe e, muitas vezes, trocaram a carne vermelha pelo bacalhau, que é muito mais caro que a carne bovina. Assim, perde-se o sentido da Sexta-feira Santa, que é um dia de penitência, oração e de consumir alimentos simples. Não precisa necessariamente ser o peixe; pelo contrário, se o peixe é caro, não faz sentido nenhum preferi-lo à carne", completa. Da Família Real às famílias brasileiras Professor e historiador Diogo Comitre Arquivo pessoal A popularização do bacalhau no Brasil, explica o historiador Diogo Comitre, está ligada à vinda da Família Real em 1808, quando Dom João VI chegou ao país fugindo de Napoleão Bonaparte, que invadiu Portugal naquele período. "A vinda da família Real à América Portuguesa foi responsável por intensificar a difusão da cultura e dos hábitos alimentares portugueses em nosso território, contribuindo para o aumento do consumo do bacalhau. Como ainda era um produto relativamente barato, ele foi incorporado à alimentação dos brasileiros, especialmente nos dias santos, em que era recomendado o jejum de carne vermelha", diz. Além disso, o peixe, que tem, entre suas peculiaridades, o fato de ser conservado salgado, podia ser transportado para outras regiões, especialmente com o apoio da estrutura da corte. "A durabilidade do peixe ajudava no transporte para regiões onde o pescado não era facilmente encontrado, permitindo a abstinência de carne vermelha. E, como o Império Português tinha grande acesso ao bacalhau, a tradição se instalou", comenta. Initial plugin text Com o tempo, o bacalhau ficou "salgado" não apenas na conserva, mas também no preço. O professor concorda com a fala do padre sobre a inversão da ideia de abstinência. "É curioso notar que, com o passar do tempo, esse alimento se tornou bastante caro no Brasil e até mesmo em Portugal, representando uma grande contradição com a concepção envolvida na abstinência da carne vermelha na Semana Santa", diz. O professor ainda lembra que o consumo de peixe salgado remonta à Antiguidade. Vestígios arqueológicos revelam a existência de diversos espaços de produção desse alimento em territórios ocupados pelo Império Romano, como na Península Ibérica. Ao longo dos séculos, as práticas de penitência foram sendo adaptadas às diferentes realidades culturais e sociais, embora a tradição de não consumir carne às sextas-feiras tenha sido mantida em muitos lugares. "No Brasil, por exemplo, a Igreja permite que a pessoa substitua o não consumo de carne por outras atitudes, como fazer uma boa ação ou um ato de fé. Mesmo assim, na Sexta-feira Santa, muita gente mantém a tradição de evitar carne vermelha e comer peixe, que historicamente era visto como um alimento mais simples e humilde", explica. Nem todo bacalhau é igual Bacalhau-do-Atlântico ou bacalhau-da-Noruega (Gadus morhua) é o maior exemplar Reprodução/Redes sociais Além da história, há a biologia. O termo "bacalhau" não se refere a um único peixe, explica o biólogo Hélio Rubens J. Pereira Jr. Muito consumido em períodos como a quaresma, o bacalhau é, na verdade, um nome que reúne diferentes espécies de peixes de águas frias — e nem todos são iguais. "O bacalhau, um dos peixes mais consumidos no mundo, pertence à família dos gadídeos e é conhecido cientificamente como Gadus morhua, no Atlântico Norte, principal espécie comercializada. Existem diversas espécies semelhantes, como o Pollachius virens (bacalhau-verde), o Melanogrammus aeglefinus (eglefino ou haddock) e o Theragra chalcogramma (pollock do Alasca), usado em substitutos mais baratos." Os exemplares podem medir de 50 cm a 1,8 metro e são valorizados pela carne branca e firme, rica em proteínas e ômega-3. Biologicamente, o bacalhau é um predador que se alimenta de crustáceos, peixes menores e moluscos, com crescimento acelerado nos primeiros anos de vida. "As fêmeas podem produzir até 9 milhões de ovos por desova anual, em migrações massivas para áreas mais rasas no inverno, como as costas da Noruega. As larvas flutuam por meses antes de se fixarem no fundo do mar, em águas frias entre 0°C e 10°C — característica que torna a espécie sensível às mudanças climáticas", comenta o biólogo. Apesar da alta capacidade de reprodução, a pesca intensa nas últimas décadas acendeu um alerta. "O bacalhau do Atlântico, por exemplo, pode migrar até 2 mil quilômetros para desovar, mas já teve populações reduzidas em até 90% em algumas regiões devido à sobrepesca, o que levou à criação de cotas e regras mais rígidas para a captura", avisa. No Brasil, especialmente em cidades como Sorocaba e Jundiaí (SP), "o peixe é presença tradicional na mesa durante a quaresma, geralmente importado seco e salgado — herança da cultura portuguesa que une gastronomia e conservação dos alimentos", finaliza. *Colaborou sob supervisão de Gabriela Almeida Veja mais notícias da região no g1 Sorocaba e Jundiaí VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/noticia/2026/04/02/padre-explica-por-que-nem-sempre-trocar-carne-por-peixe-na-sexta-feira-santa-e-o-ideal-se-for-caro-perde-o-sentido.ghtml


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